Nosso risco de demência: genética e estilo de vida importam?

Sabemos que a doença de Alzheimer e outras formas de demência são um enorme problema tanto para indivíduos e seus familiares bem como para a sociedade como um todo.

Importante estudo publicado em 2019 estimou que, em 2016, havia 27 milhões de mulheres e 16 milhões de homens vivendo com alguma forma de demência entre 195 países e territórios pesquisados. Dado relevante foi que o número de casos mais que dobrou comparado ao ano de 1990, entretanto, foi observado penas mudanças pequenas quando se avaliou casos por idade. Isso apontava para o crescimento e envelhecimento populacional como os principais responsáveis pelo aumento do número de casos.

Seguindo esta linha de pensamento, estatísticas recentes apontam que o número de pessoas afetadas com algum tipo de demência triplicará até 2050, saindo dos quase 44 milhões de indivíduos para quase 150 milhões. Considerando-se uma idade média de início dos sintomas cognitivos aos 70 anos, estamos falando de pessoas que hoje, em 2020, têm cerca de 40 anos.

Para nossa surpresa, ainda segundo este estudo, o Brasil aparece como segundo país em prevalência de demência, perdendo apenas para a Turquia. Dado alarmante para nós.  

Até o momento, os ensaios clínicos de medicamentos para interromper ou até retardar seu progresso foram insuficientes. Posto isto, faz-se imperioso a conscientização a respeito dos fatores de risco, para que possamos intervir antes que as pessoas sejam diagnosticadas com demência, incentivando mudanças no estilo de vida.

O que é demência e o que a torna tão complexa?

O termo “demência” descreve grupos de doenças específicas caracterizadas por sintomas como perda de memória. O tipo mais comum de demência é a doença de Alzheimer (DA). Pessoas com DA têm placas no cérebro constituídas por proteínas emaranhadas, possivelmente causadoras da doença.

Outro tipo comum de demência é a demência vascular. Pensa-se que ocorra devido a vasos sanguíneos danificados no cérebro, como um acidente vascular cerebral.

Além das demências já mencionadas, somam-se a demência por corpúsculos de Lewy e a demência frontotemporal (principal causa em pessoas com menos de 50 anos).   

Tanto os fatores genéticos (variantes de genes transmitidos da mãe e do pai) quanto os modificáveis ​​do estilo de vida (dieta, tabagismo, atividade física) desempenham papel no desenvolvimento da demência, talvez em conjunto.

Mas quais fatores podem afetar o risco de demência?

Os genes – que não são considerados modificáveis ​​- e os fatores do estilo de vida, como atividade física e dieta – que são considerados modificáveis ​​- desempenham papéis potenciais em diferentes formas de demência.

Estudo recente do JAMA tentou estimar quantos fatores genéticos e de estilo de vida influenciam o risco de demência. Neste estudo, os pesquisadores utilizaram registros hospitalares e registros de óbito para coletar diagnósticos em 200.000 indivíduos brancos britânicos com 60 anos ou mais.

O que encontraram foi que tanto o estilo de vida quanto genes específicos estavam associados ao risco de demência. Interessante notar que o risco genético e o estilo de vida parecem agir independentemente um do outro. Por exemplo, indivíduos com estilo de vida pouco saudável e alto escore de risco genético tiveram quase duas vezes e meia mais riscos do que indivíduos com estilo de vida pouco saudável, mas com poucos genes associados à demência.

Ainda segundo este estudo, se as populações com alto risco genético mudassem seu estilo de vida, e se o estilo de vida fosse a causa da DA, um em cada 121 casos de demência seria impedido em 10 anos. Isso é significativo, mas que número de modificações no estilo de vida seriam necessárias para a prevenção da DA?

No estudo GBD 2016, mencionado acima e publicado em 2019, apenas quatro fatores de risco foram considerados com evidência suficiente para uma associação causal com a doença de Alzheimer e outras demências:

  • Índice de massa corpórea (IMC) aumentado
  • Glicemia de jejum alterada
  • Alta ingestão de açúcar
  • Tabagismo

Outro estudo publicado no periódico Lancet sugeriu que, além dos fatores de risco mencionados acima, outros poderiam contribuir para maior risco de demência, incluindo: perda auditiva, baixa escolaridade, depressão, inatividade física e isolamento social. Todos estes juntos poderiam representar até 35% dos casos de demência.

Como não conseguimos alterar nossos genes, resta-nos os fatores modificáveis.  Provavelmente, mudanças no estilo de vida devam ser iniciadas precocemente, haja visto que o período assintomático da doença é considerado longo, de 20 a 30 anos. A abordagem de todos os fatores de risco mencionados no texto deve auxiliar na redução da chance de desenvolver a demência. Isto é o que fazemos e estimulamos na nossa prática. Identifique os seus, pense a respeito de cada um deles e proponha-se a reduzi-los. Afinal, envelhecer com saúde é o que todos desejamos.

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