Neste texto explico de forma prática como conduzimos o tratamento com Kisunla (donanemabe), indicado para as fases iniciais da Doença de Alzheimer, a primeira medicação disponível no Brasil capaz de atuar na causa da doença, como veremos. Abordamos quem pode se beneficiar, como funciona o protocolo de infusões, quais exames solicitamos, por que o teste da APOE é importante, quais são os efeitos colaterais de maior atenção, como decidimos a duração do uso e o que pacientes e familiares podem esperar ao longo do acompanhamento.
O que é o Kisunla (donanemabe) e o que esperar do tratamento?
O Kisunla (donanemabe) é o primeiro medicamento de uma classe de medicações chamadas anti-amilóide, disponível no Brasil. É um imunobiológico, um anticorpo monoclonal, que se liga às placas beta‑amiloide e estimula a sua remoção com o objetivo de lentificar a doença e preservar a autonomia no dia a dia. É administrado por infusão intravenosa mensal e, em muitos casos, pode ser pausado quando a carga de amiloide atinge níveis baixos em exames de imagem em alguns meses de uso.
Antes de começarmos o tratamento, confirmamos a presença de amiloide (por exame de imagem chamado de PET-Amiloide ou exame de líquor), pedimos ressonância magnética (RM) para segurança e consideramos o teste genético APOE, que ajuda a estimar o risco de efeitos colaterais do tratamento e selecionar melhor os pacientes para tratamento. Em termos práticos, quando indicado e iniciado cedo, o tratamento tende a oferecer meses (ou possivelmente anos) a mais de independência em tarefas cotidianas, dentro de um plano bem monitorado e personalizado.
Nosso objetivo com o Kisunla é desacelerar a progressão da doença, isto é, fazer com que as perdas de memória, linguagem e autonomia lentifiquem-se. Na prática, isso costuma se traduzir em mais tempo preservando a capacidade de lidar com contas e tarefas domésticas, manter compromissos com lembretes simples e sustentar a participação em interações sociais com menos interferência dos sintomas. Além do efeito clínico, o donanemabe promove remoção rápida das placas de amiloide no cérebro, documentada por exames de imagem.
Quando atingimos a meta de baixa carga amiloide, discutimos a possibilidade de pausar o medicamento, mantendo o acompanhamento clínico e por imagem. Observamos benefícios mais consistentes quando o tratamento é iniciado cedo (especialmente no estágio de comprometimento cognitivo leve) e quando a carga de tau é menor, em linha com a seleção por biomarcadores dos ensaios clínicos.
Quem consideramos candidatos ao Kisunla
Indicamos o tratamento para pessoas com Alzheimer em fase inicial e confirmação de patologia amiloide positiva por biomarcadores. Antes de iniciar, avaliamos condições clínicas gerais, histórico de ressonâncias magnéticas, uso de anticoagulantes, apoio familiar e a viabilidade logística de comparecimento às infusões mensais e às ressonâncias seriadas. O objetivo é construir um plano eficaz e seguro, compatível com a realidade do paciente e acompanhante, com decisões tomadas de forma compartilhada.
Como funciona o tratamento
Começamos confirmando o alvo terapêutico. Utilizamos biomarcadores de amiloide por meio de PET específico ou análise do líquor. Em alguns contextos, exames de sangue auxiliam a triagem, mas a confirmação segue critérios clínicos e regulatórios. Em seguida, solicitamos o teste genético APOE, que não serve para “fechar diagnóstico”, e sim para estratificar risco de segurança: determinadas variantes, especialmente o APOE ε4, aumentam o risco de eventos chamados ARIA (detalhados adiante) durante o tratamento. No caso, a homozigose para este gene (duas cópias APOE ε4) contraindicaria o uso da medicação pelo risco maior de eventos adversos.
Realizamos uma ressonância magnética (RM) basal antes da primeira infusão para segurança e comparação futura. Agenda-se a data do início do tratamento. O Kisunla é administrado por infusão intravenosa mensal, com duração típica de aproximadamente 30 minutos em clínica com suporte para tratamentos infusionais. Iniciamos com uma fase de titulação (1 ampola da medicação) e, posteriormente, avançamos mensalmente a dose até a dose plena de 4 ampolas mensais, conforme protocolos atualizados.
Nos primeiros meses, o risco de ARIA é maior; por isso, mantemos um calendário de RMs seriadas e um canal de comunicação rápido com a família para adiantarmos exames se surgirem sintomas. Ao longo do seguimento, reavaliamos periodicamente memória, linguagem e autonomia nas atividades do cotidiano, além de acompanhar os biomarcadores de imagem. Quando alcançamos baixa carga de amiloide, discutimos pausar o medicamento e seguimos com monitorização clínica e, quando indicado, por imagem. O tempo até atingir essa meta varia entre indivíduos; as decisões são individualizadas e revisadas com base nos resultados clínicos e radiológicos.
Exames que solicitamos e por que eles importam
Inicialmente é necessário a realização do PET de amiloide ou do líquor com marcadores de amiloide para confirmar que estamos tratando o alvo certo. Solicitamos RM de cérebro antes de começar e em marcos definidos para vigilância de ARIA. Pedimos o APOE para personalizar o plano de segurança e ajustar a frequência das RMs quando o risco é maior. Aplicamos avaliações cognitivas e funcionais em intervalos regulares para medir o benefício concreto na vida diária e orientar decisões de continuidade, pausa temporária ou interrupção.
Efeitos colaterais principais e sinais de alerta
O evento adverso de maior atenção é o ARIA (alteração de imagem relacionadas a amiloide) podendo ser de dois tipos: edema ou microhemorragia cerebrais visíveis na RM, que ocorrem em uma frequência de 24 e 19% respectivamente, mais frequentemente nos primeiros meses e em geral são assintomáticos. Quando sintomáticos, pode causar dor de cabeça, confusão, tontura, náuseas, alterações visuais ou fraqueza de um lado do corpo.
Na maioria das vezes, são manejadas com pausa temporária, ajuste de infusões e vigilância por imagem, seguindo protocolos de segurança. Reações à infusão como febre, calafrios, náuseas ou eritema cutâneo também podem ocorrer e, em geral, são leves e autolimitadas.
Duração do tratamento e decisão de pausa
A intenção do tratamento é reduzir as placas de amiloide a níveis baixos documentados no exame PET amiloide e isso ocorrerá quando o exame mostrar níveis menores que 25 centiloides (em dois exames consecutivos) ou 11 centiloides (em um único exame). Quando atingimos essa meta – considerando também o quadro clínico – discutimos a pausa do medicamento e mantemos acompanhamento para garantir estabilidade.
Alguns pacientes alcançam a meta em menos tempo, por exemplo, seis meses; outros, precisam de um período maior, podendo durar até 18 meses. Todas as decisões são compartilhadas e revisadas periodicamente entre médico, paciente e familiares.
Quando encerramos as infusões de Kisunla (donanemabe) por atingirmos a meta de baixa carga de amiloide vistos no exame de imagem PET Amiloide, a grande pergunta passa a ser: como o cérebro se comporta nos anos seguintes? Os dados mais recentes indicam que o reacúmulo de amiloide é lento e que parte do ganho clínico obtido no período ativo tende a se manter ao longo do tempo, durando muitos anos, especialmente quando o tratamento foi iniciado cedo e com seleção por biomarcadores favoráveis.
E os benefícios clínicos no seguimento de longo prazo?
Os resultados de extensão de longo prazo (3 anos após o início do tratamento) foram apresentados em 2025, e acompanharam pessoas que haviam sido tratadas com donanemabe e, depois, interromperam as infusões. O estudo confirmou uma taxa média de reacúmulo de amiloide de apenas 2,4 centiloides/ano (para se ter uma ideia, o nível médio de amiloide no início do tratamento situou-se em torno de 100 centiloides), sugerindo que, após “limpar” as placas a níveis baixos (inferiores a 25 centilóides), o retorno do amiloide é gradual e lento.
Do ponto de vista clínico, observou-se vantagem sustentada de 1,2 pontos na escala CDR‑SB aos 3 anos, em comparação com o grupo controle, o que indica manutenção parcial do benefício funcional ao longo do tempo. Em termos práticos, isso se traduz em prolongar o intervalo até marcos funcionais mais avançados, preservando por mais tempo a autonomia em tarefas instrumentais do cotidiano.
Em resumo, após o término programado do tratamento, os dados de extensão disponíveis convergem para pelo menos duas mensagens práticas: primeiro, o amiloide tende a reacumular muito lentamente e, segundo, há sinal de benefício clínico sustentado em horizontes de pelo menos até 3 anos. Com isso, poderemos realizar o acompanhamento por biomarcadores e avaliação funcional periódica, essenciais para identificar o melhor momento de apenas observar, ajustar o plano de segurança ou considerar estratégias de retratamento conforme a evolução individual e estudos disponíveis a respeito.
A discussão sobre o retratamento com donanemabe (Kisunla) é uma questão em aberto, sendo um dos tópicos mais inovadores no campo do Alzheimer, pois este medicamento introduziu um paradigma inédito: a interrupção do tratamento após a limpeza das placas amiloides. Para a maioria dos pacientes que atingiram a limpeza total, estima-se que levaria quase 4 anos para que os níveis de amiloide voltassem a cruzar o limiar de “positividade”. Estudos específicos serão necessários para apoiar estratégias de retratamento e segurança deste procedimento.
Considerações em relação ao acesso
Apesar do avanço científico disruptivo que o Kisunla representa, a viabilidade de sua aplicação em larga escala enfrenta barreiras econômicas severas. O alto custo da medicação, somado à necessidade de uma infraestrutura diagnóstica de ponta – que inclui exames de PET-amiloide e monitoramento rigoroso por ressonâncias magnéticas – restringe, no momento, o acesso a uma parcela muito limitada da população. Até o momento, poucas operadoras estão disponibilizando o tratamento.
Mensagem final
O Kisunla (donanemabe) é uma nova e promissora opção para tratamento da fase inicial da Doença de Alzheimer com potencial de desacelerar o declínio e reduzir a carga de amiloide, desde que integrado a um protocolo de segurança estruturado que inclua testagem de APOE, RMs seriadas e monitorização clínica próxima.
Quando indicado e iniciado precocemente, observamos ganhos práticos como mais tempo de autonomia e melhor planejamento do cuidado familiar. Nossa proposta é construir, com cada paciente e cuidador, um plano de cuidados, baseado em biomarcadores e nas melhores evidências disponíveis, para garantir o sucesso do tratamento com Kisunla (donanemabe), quando indicado.
Para discutir elegibilidade, segurança e planejamento do seu tratamento, entre em contato com nossa equipe e agende sua consulta.
Referências principais
- Donanemab in Early Alzheimer’s Disease. New England Journal of Medicine. 2021. Conduziu o ensaio de fase 2 (TRAILBLAZER‑ALZ) demonstrando forte depuração de amiloide por PET e desaceleração do declínio clínico em Alzheimer inicial.
- Trial of Donanemab in Early Symptomatic Alzheimer Disease. JAMA. 2023. Ensaio de fase 3 (TRAILBLAZER‑ALZ 2) confirmando benefício clínico estatisticamente significativo e caracterizando o perfil de segurança em larga escala.
- TRAILBLAZER‑ALZ 4. Alzheimer’s & Dementia. Comparação direta em depuração de amiloide entre donanemabe e aducanumabe, evidenciando remoção mais rápida e profunda de placas com donanemabe.
- Donanemab in early symptomatic Alzheimer’s disease: results from the TRAILBLAZER‑ALZ 2 long‑term extension. 2025.
- Kisunla (donanemab-azbt) – Prescribing Information. U.S. Food and Drug Administration (FDA). Orientações de dosagem, monitorização e segurança, incluindo recomendações para RM e estratificação por APOE.
- Appropriate Use Recommendations (AUR) para anticorpos antiamiloide em Alzheimer inicial. Diretrizes de especialistas sobre seleção de pacientes, manejo de ARIA e fluxos de monitorização.


